Dos escândalos que nos rebaixam à arte que nos eleva, isto é Brasil

Aldir Blanc, meu amigo íntimo com quem não convivi, faria 80 anos neste mês; por meio de suas letras conversamos e compartilhamos sentimentos, frustrações, alegrias e rejeições

Por Jorge Abrahão, coordenador-geral do Instituto Cidades Sustentáveis

Difícil lidar com a tempestade de denúncias que surge todos os dias no Brasil e colocam em xeque a lisura de pessoas que, supostamente, deveriam ter um comportamento ético compatível com os cargos que ocupam ou pleiteiam. Não há alternativa a não ser investigar todos os envolvidos. Um antídoto para esses escândalos que nos rebaixam é a arte, que nos eleva. E nessa barafunda, entre decepções políticas e inspirações da arte, seguimos resistindo e levando a vida na expectativa de chegar o tempo em que este país fará jus à sua riqueza cultural e terá lideranças à altura da dignidade da maioria de seu povo.

Escrevo para celebrar um outro amigo íntimo com quem não convivi e que, neste mês, faria oitenta anos. Quem diria! Oitenta anos. Quando ele inesperadamente faleceu, uma das primeiras vítimas da pandemia, tomei luto por semana, daqueles de ficar amuado, isolado, sem chão e sem vontade de falar. Onde buscaria agora o alento para experiências vividas e a esperança de um novo tempo?

Sempre ouvi suas letras, para músicas com diversos parceiros, como se conversássemos num bar. Ficava pensando de onde vinha a sensibilidade que ali se expressava de maneira tão espetacular e generosa. E então, invariavelmente, não conseguia conter a emoção.

Com ele aprendi a conversar com o tempo, esta dimensão que na maioria das vezes nos pressiona, mas que nos proporciona experiências e amadurecimentos incontornáveis. Graças a Resposta ao Tempo passei a encará-lo de outra maneira, amigavelmente, mesmo com suas batidas na porta. E não é pouca coisa aprender a lidar com o tempo.

Nos momentos difíceis da ditadura, O Bêbado e a Equilibrista me fez retomar a esperança que dançava na corda de sombrinha e sabia que o show – e a vida – tinha que continuar.

A Caça a Raposa surge como uma metáfora da vida, ao vivermos caçando sonhos e sentido, e os necessários recomeços depois de nossos tombos. Um alento.

Quando entro em rota de colisão nas relações ouço Incompatibilidade de Gênios, e não me sinto só. E nos descaminhos amorosos, Voo Cego me guia como pombas nos momentos de isolamento: um choque de realidade.

Em Lupicínia encontrei meu lado B, mas que faz parte de mim, e Saudades da Guanabara, que me faz sorrir ao me recordar de territórios de afeto degradados, mas que ainda podem se salvar.

Certa vez, de passagem pelo Rio de Janeiro, arrisquei ir a um bar onde sabia que ele se reunia com amigos para cantar. De maneira geral, por puro encabulamento, evito tietar meus ídolos, mas não resisti e fui cumprimentá-lo. Nessas horas – não sei se acontece com vocês – as palavras somem e fico perdido. Só me ocorreu dizer, um pouco sério e um pouco brincando, que talvez eu fosse, num ranking imaginário, seu segundo fã, deixando generosamente em aberto o primeiro lugar, um jeito infantil de expressar minha admiração.

Ele ficou me olhando um tanto incrédulo, sem saber o que dizer: nos abraçamos e me afastei. Foi quando percebi que era desnecessário ratificar presencialmente uma amizade que já era íntima muito antes desse encontro fugaz.

Através de suas letras conversamos e compartilhamos sentimentos, frustrações, alegrias e rejeições, trocas de qualidade que caracterizam grandes amizades.

Felizmente sua obra é imensa, mas sigo economizando acesso às músicas que ainda não conheço. Vou aos poucos, com parcimônia, como se não pudesse consumir de sopetão a cota de prazer que ele nos deixou, por sabê-la limitada. Como se tivesse que manter uma reserva para acessar aos poucos e somente quando for extremamente necessário, como água em tempos de racionamento: questão de sobrevivência.

É muito bom ter amigos íntimos que não conhecemos. É quando a imaginação se liberta e grandes amizades se consolidam e animam a vida, independente de apresentações formais. A boa notícia é que, dessa forma, há um universo de amizades a ser explorado.

Esse mês comemoraríamos, portanto, seus 80 anos, e meu alento é que sua esplendorosa obra seguirá alimentando amizades Brasil afora, mundo afora. Para este tipo de relação, estar ou não presente, não importa. É como a gente querida que já se foi, mas permanece dentro de nós. Ela habita o campo das imaginações e da memória. É assim minha amizade íntima com Aldir Blanc. Eterna.

Artigo originalmente publicado na Folha de S.Paulo em 24 de setembro de 2026.

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