Diante de um congresso que nos envergonha, há brasileiros que nos orgulham

Por Jorge Abrahão, coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis

Dá pra ser amigo íntimo de quem você nunca conheceu?

Nunca nos encontramos, apertamos as mãos, demos um abraço ou olhamos olho no olho. Mas somos amigos íntimos, como poucos. Porque ele compartilhou comigo suas dúvidas, angústias, desejos e sonhos através de sua arte. E tocado por sua poesia repensei, retomei esperanças e muitas vezes reafirmei a vida. Afinal de contas, não é isso o que as relações afetivas de qualidade nos proporcionam?

Foi meu pai quem nos apresentou, eu ainda criança, dez anos, ele com 23. Naquele tempo, antes do lançamento de seus discos, uma apreensão coletiva pairava no ar à espera da liberação de suas músicas pela censura. E quando o disco saía, sentávamos na sala a escutar belezas que passariam a nos impactar por um longo tempo. Não poucas vezes pela vida toda.

Logo em seguida, em 1971, meu pai foi preso político. Trilhou a tenebrosa rota daquele momento: primeiro o DOI CODI, depois o Deops e por fim o presídio Tiradentes. Tempos depois, um companheiro de cela do Tiradentes contou-me que, quando um novo preso chegava, uma quarentena de desconfiança se iniciava para saber se, eventualmente, era um agente infiltrado da polícia. Pois a senha para dissipar essa dúvida foi uma música: observaram que ele dormia cantarolando baixinho “Apesar de você”. Então, a desconfiança terminou e iniciaram-se amizades que ele levou por toda a vida. O compositor e a música como afiançadores de um modo de ver o mundo e de relações de afeto.

A partir de então, quantas desilusões superei ouvindo “ Atrás da porta”?

Quantas expectativas alimentei graças ao “Vai Passar”?

Que desejo insondável move a vida e que “O que será” me alertou?

Quantas separações vivenciei com “Trocando em miúdos”?

Quanta sensibilidade aflorou com “Construção”?

Quanta esperança alimentei de que os sonhos fossem reais – e a vida não – com “ A Moça do Sonho”.

Quantas dúvidas dissipei com “E se”?

Quando nem uma luz se vê, “Fora de Hora”.

Quanta saudade sufoquei com “Sabiá”?

Quanta humildade se instalou com a “A mulher de cada porto”?

E o amor que busquei nas águas de um Rio de Janeiro submerso em “Futuros Amantes”?

Sua obra está impregnada de vida. Saudades, angústias, amores, esperanças, memórias e uma colcha de retalhos de afetos cobriu nossa amizade. Não é exagero dizer que suas canções me salvaram.

Talvez a beleza das relações resida nessas múltiplas possibilidades de compartilhar afetos, independente do tempo e do espaço. O universo de nossas vidas está relacionado à capacidade de estarmos disponíveis para acessar, entre outras coisas, as maravilhas produzidas pelos humanos que tanto nos tocam.

No momento em que vivemos uma realidade desalentadora, lembrar do que somos capazes de criar nos traz algum alento.

Cada vez mais precisamos de referências éticas. Pois esse brasileiro traz consigo a integridade e uma alta dose de sensibilidade, coragem, humildade, discrição, solidariedade, e senso de justiça. Um país que tem uma pessoa dessa envergadura só pode se orgulhar. Tenho o enorme prazer de ser amigo íntimo de Francisco Buarque de Holanda, sem conhecê-lo. Chico para os íntimos.

Artigo publicado originalmente na Folha de S. Paulo em 7 de maio de 2026

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