Torcer ou não torcer pelo Brasil, eis a questão

Por Jorge Abrahão, coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis

No jogo do Brasil na copa, me deparei com questões que me fizeram pensar e ficou clara a separação entre razão e emoção

Tenho um monte de argumentos racionais para não torcer pelo Brasil na Copa. Jogadores insensíveis aos problemas do país, a maioria alienados e garotos propaganda de bets que acabam com a vida de boa parte da população mais pobre, milionários que ostentam sua riqueza com bens materiais de toda espécie, carecem de educação e orientação para se comportarem de maneira sóbria e solidária com a realidade da maioria das pessoas de seu país. Poderiam ser lideranças e transmitir valores para a juventude, mas desperdiçam esta oportunidade. Tudo me leva a ficar distante.

Além disso, dirigentes nacionais oportunistas, que se utilizam do esporte que mobiliza boa parte da população para inflar seu poder político e econômico.

E os dirigentes da Fifa, só preocupados com o resultado financeiro, sendo o esporte um trampolim para seus projetos pessoais. Desnecessário citar as barbaridades discriminatórias cometidas pela Fifa durante a copa, além de sua aliança estratégica com o presidente dos EUA, de quem recebeu o seu prêmio da paz.

Não alimento a ideia da competição entre países. Afinal de contas, somos uma só espécie no planeta nos dias de hoje, e a ideia de que “tudo que é humano nos pertence” me seduz mais do que a de nacionalismos fúteis ou países competindo: na copa por uma taça ou nas guerras por ridículas vitórias com mortes que mancham suas imagens.

Mesmo sendo uma só espécie, ao buscarmos sobreviver em diferentes ambientes, construímos culturas diversas que traduzem a riqueza humana. Neste sentido, ver as pessoas nos estádios com suas vestimentas, suas diferentes formas de se manifestar, não deixa de ser um espetáculo. Mesmo sabendo que os ingressos custam na média US$ 1.500, e que, portanto, o recorte de público é limitado às classes mais altas.

Pois bem. Com tudo isso, argumentos prontos para torcer contra, me observei inquieto na poltrona. Não dominei a emoção e de repente me vi xingando jogadores que se escondiam ou erravam passes grotescamente, para então soltar o grito de gol no momento que saímos do sufoco. Confesso que torci, mesmo com toda minha negação racional. A emoção suplantou a razão. Venceu o humano em mim.

Artigo originalmente publicado na Folha de São Paulo em 02 de julho de 2026

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