Pela primeira vez desde que o IDSC monitora os municípios brasileiros (2015), a pontuação média das cidades passou dos 50 pontos; mais bem colocada entre as cidades de grande porte é Brasília, e a pior, Belém
Por Jorge Abrahão, coordenador-geral do Instituto Cidades Sustentáveis
O Índice de Desenvolvimento Sustentável das Cidades – Brasil (IDSC-BR) 2026, que está sendo lançado hoje, tem essa resposta e, caso você tenha interesse, é só acessar o site oficial. Ele reúne 100 indicadores públicos em diversos temas e relaciona-se com os 17 ODS da Agenda 2030, revelando o nível de qualidade de vida de todas as 5.570 cidades brasileiras. O índice faz do Brasil o único país do mundo a monitorar todas as suas cidades na Agenda 2030.
O IDSC-BR mostra que 2.076 cidades, onde vivem 79,3 milhões de pessoas, têm baixa qualidade de vida e que apenas 271 cidades, com 7,8 milhões de habitantes, apresentam um nível alto de qualidade de vida, adequado para garantir bem-estar e acesso a serviços públicos de qualidade à população. Esta é a distância que separa os brasileiros. Dez vezes mais brasileiros vivem em cidades de baixa qualidade de vida, se comparadas às que vivem nos municípios com alta. Distância que pode ser reduzida com a priorização de investimentos na geração de trabalho e renda, em habitação e saneamento, na melhoria da qualidade da saúde e educação ou na gestão de riscos ambientais, por exemplo.
Pela primeira vez desde que o IDSC monitora os municípios brasileiros (2015), a pontuação média das cidades passou dos 50 pontos, alcançando o nível médio de qualidade de vida de 51,22, em escala que varia de 0 a 100 pontos
De modo geral, o trabalho revela que melhorou a qualidade de vida nas cidades brasileiras. Depois de 10 anos de estagnação, confirma a melhora que tinha começado em 2025. Sete em cada dez cidades melhoraram a qualidade de vida, enquanto 3 em cada 10 pioraram. O movimento observado, portanto, é de melhora devido a políticas públicas municipais, como a redução de filas de creches, saúde da família e inclusão produtiva, e federais, como a melhoria da renda, redução do desemprego, habitação e saneamento.
A melhor colocada entre as cidades de grande porte é Brasília e a pior, Belém. A permanecer com a velocidade de mudança dos últimos dez anos, a capital paraense só alcançará o nível de qualidade de vida de Brasília em muitas décadas.
Outro triste dado mostra que, das 100 cidades com a pior qualidade de vida, 74 estão no bioma Amazônia. Considerando que 70% da população local vive em áreas urbanas, fica evidente a relação entre o desenvolvimento sustentável das cidades, a redução do desmatamento e a preservação da biodiversidade.
Se mantivermos o mesmo nível de crescimento dos últimos 10 anos, só vamos alcançar a média de alta qualidade de vida em 32 anos, em 2058. Mas, se crescermos como nos dois últimos anos, poderemos alcançar a média de alta qualidade de vida já em 2030.
O IDSC-BR revela a enorme desigualdade territorial no Brasil. O desafio é darmos velocidade às transformações integrando ações de diferentes esferas de governo que, baseadas em dados, podem identificar os desafios prioritários para direcionar investimentos e políticas públicas. E com isso melhorar a qualidade de vida das pessoas que vivem nas cidades, que deve ser o principal objetivo dos gestores públicos.
Artigo originalmente publicado na Folha de S.Paulo em 27 de agosto de 2026

