De um presente desanimador para um futuro possível 

Por Jorge Abrahão, coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis

A história da evolução da vida é fascinante, mas não é possível que tenhamos trilhado toda esta trajetória de duzentos mil anos de Sapiens para experimentar este espetáculo trágico de violência e genocídio que hoje assistimos. De ameaças insanas, de atitudes desumanas e violentas, de desvario instalado em lideranças políticas militarmente poderosas e mentalmente doentes.

Mas nesse desenrolar, nem só de trevas vivemos. Fomos e somos capazes de criar maravilhas: na arte, na filosofia e na ciência, entre outras belezas. A música e seus encantos, a literatura e seus deslumbres, as artes em geral, as questões filosóficas que nos alimentam e a ciência são feitos que nos elevam. Além disso, ter consciência dá dimensão de nossa insignificância diante da natureza, é um presente que recebemos. Poder trabalhar estas espetaculares complexidades que nos compõem é um privilégio e uma raridade cósmica.

O dilema é que insistimos em reduzir nossa potência e, do ponto de vista de organização política, vivemos momento em que a democracia foi sequestrada e permite a chegada de seus algozes ao poder, que tem por objetivo destrui-la. Bolsonaro, Trump e Netanyahu são exemplos recentes de políticos que, por seus atos, deveriam ter sido barrados antes do estrago que anunciavam produzir e produziram. Geraram instabilidade política, insegurança jurídica e crises econômicas, que provocaram sofrimento nas populações, dificuldade para as empresas e retrocesso social.

O certo é que ainda não fomos capazes de criar mecanismos de defesa contra esses algozes. A justiça está alicerçada em bases que preveem, com razão, a defesa e o contraditório para reduzir a chance de erro, mas o mundo digital está a exigir mais agilidade para evitar danos muitas vezes irreparáveis para a sociedade. Uma justiça que responda ao tempo digital é um desafio que temos pela frente.

Temos experiência suficiente para criar uma proposta inspiradora, que esteja à altura da raridade que somos. Para tanto é importante revisitar princípios éticos que norteiem as decisões como respeito, justiça, equidade e solidariedade, entre outros.

Vivemos desafios importantes a serem enfrentados; a guerra e a paz; a pobreza e as desigualdades; a mudança climática e o aquecimento global; as big techs e o estímulo ao vício em crianças e jovens; a retomada de uma governança global como alternativa para encaminhar essas questões que ultrapassam as fronteiras dos países.

Somos 8 bilhões de pessoas no mundo e os países produzem um PIB de US$ 110 trilhões. Temos, portanto, riqueza suficiente para promover uma vida digna para todas as pessoas no mundo. O problema é que somos capazes de produzir riquezas, mas incapazes de distribuí-la. Um exemplo marcante é que dos 8 bilhões que somos, 800 milhões ainda passam fome em 2026. É inacreditável. A estimativa é de que precisamos de US$ 40 bilhões por ano para acabar com a fome. Pois só nos seis primeiros dias na guerra contra o Irã estima-se que os Estados Unidos gastaram US$ 11 bilhões. Como a guerra durou mais de mês, é provável que este número esteja em torno de US$ 60 bilhões. Portanto, o mesmo recurso que matou milhares de pessoas e gerou milhões de deslocados poderia ter resolvido a fome de 800 milhões. E atentem que Trump solicitou o valor recorde de US$ 1,5 trilhão de orçamento para a indústria bélica em 2026. Portanto, há recursos no mundo, a questão é a definição das prioridades.

Somos detentores de sensibilidade e temos conhecimento e recursos necessários para uma proposta de um futuro melhor. A questão é quando elegeremos lideranças que estejam à altura do enorme potencial que temos e que insistimos em desperdiçar.

Artigo publicado originalmente na Folha de S. Paulo em 09 de abril de 2026

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