As perguntas que não são feitas aos candidatos no Jornal Nacional

Nada justifica desperdiçamos tantas oportunidades de tirar dos candidatos o que pensam sobre temas centrais para o país e para a vida de cada um de nós

Por Jorge Abrahão, coordenador-geral do Instituto Cidades Sustentáveis

Estamos carentes de qualidade no debate eleitoral. Não é de hoje que entrevistas com candidatos nos grandes veículos de comunicação são pautadas por assuntos que estão distantes do que realmente interessa para a população. Que não colocam a política à altura da importância que tem nas nossas vidas e que, muitas vezes, evitamos reconhecer.

Até dá para compreender que, em tempo de redes sociais, são os recortes, a imagem e a fala rápida que levam à maior audiência e ao engajamento. Mas isso não justifica desperdiçamos tantas oportunidades de tirar dos candidatos o que pensam sobre temas centrais para o país e para a vida de cada um de nós.

Para aprofundar a questão, formulei algumas perguntas que evidenciem suas propostas sobre temas relevantes, para que a definição do voto se relacione com quem estamos mais alinhados em termos de visão e enfrentamento dos problemas. Se estivesse no lugar dos entrevistadores, seguiria o roteiro a seguir:

1 – Qual sua visão inspiradora para o país? Como imagina o país daqui a dez anos?
Da resposta poderemos identificar o grau de ambição do candidato e ter a percepção de sua grandeza ou limitação. Eu diria que esta é uma das questões mais importantes na construção da avaliação do candidato. E todas as seguintes deverão estar alinhadas com esta visão inspiradora.

2 – Sobre a soberania nacional, como você vê a autonomia e a independência do país nas tomadas de decisão?
Estão em jogo nesta eleição visões distintas sobre o tema, que diferenciam os candidatos. É a questão mais importante desta eleição, pois definirá o modo de governar com impacto no presente e no futuro do país.

3 – Qual a importância do aprimoramento da democracia no país? Quais serão suas ações neste sentido? E como pretende se relacionar com as outras instituições?
Há candidato declarando que não vai respeitar as decisões do STF e outros estimulando desavenças que podem levar a uma crise institucional sem precedentes, gerando ambiente de insegurança com consequências imprevisíveis. São informações importantes que podem fazer com que você sinta-se alinhado ou não a um candidato.

4 – Como reduzir as desigualdades do país? Quais medidas você pretende adotar para distribuir renda e reduzir a pobreza?
O Brasil é um dos dez países mais ricos do mundo, mas lamentavelmente é também um dos dez mais desiguais. Como podemos construir um pacto nacional para enfrentar este que é o maior problema do país?

5 – Qual é o seu plano para enfrentar a mudança climática?
Você concorda com os termos do Acordo de Paris para evitar o aquecimento global em 2ºC até o final do século? Você é a favor do desmatamento zero na Amazônia? E como devemos preservar a biodiversidade? Qual é a sua posição sobre a exploração de petróleo na Amazônia? Que medida devemos tomar para enfrentar o El Niño?

6 – Qual é a sua posição sobre soberania digital?
Como lidar com a desinformação e a responsabilização das Big techs? E quanto aos vícios das crianças e os problemas que o excesso de tela podem provocar? E sobre a proibição do uso das redes para menores de 16 anos, a exemplo do que ocorre em países da Europa e na Austrália?

No próximo artigo trarei os outros temas que não couberam neste espaço. Numa eleição em que está em jogo visões de mundo tão diferentes, e que podem ser críticas para o futuro do país, não há espaço para debates superficiais que confortavelmente tentam igualar todos candidatos, sugerindo que o eleitor está diante de uma roleta, ao invés de contribuir para que a decisão seja a mais racional e lastreada em evidências possível. Caberá a cada um(a) dar o devido peso aos temas que lhe são caros. E, então, votar.

Artigo originalmente publicado na Folha de S.Paulo em 3 de setembro de 2026.

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