Seis em cada dez pessoas fazem atividades extras para complementar a renda, aponta Pesquisa Viver nas Cidades

Levantamento do Instituto Cidades Sustentáveis e Ipsos-Ipec mostra percepção da população sobre renda, orçamento doméstico, pobreza e mobilidade social em dez capitais brasileiras.

Seis em cada dez pessoas entrevistadas pela Pesquisa Viver nas Cidades: Desigualdades e Mobilidade Social afirmam ter realizado atividades extras para complementar a renda nos últimos 12 meses. O levantamento, realizado pelo Instituto Cidades Sustentáveis (ICS) em parceria com a Ipsos-Ipec em parceria com a Fundação Grupo Volkswagen e com cofinanciamento da União Europeia, ouviu 3.500 internautas em dez capitais: Belém, Belo Horizonte, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.

A pesquisa foi lançada no dia 17 de setembro e investigou a percepção da população sobre temas que impactam diretamente a qualidade de vida nas cidades, como renda, orçamento doméstico, moradia, escolaridade, pobreza e mobilidade social. Confira os principais destaques.

Trabalho extra é estratégia para complementar a renda

Os dados mostram que o trabalho e as atividades informais ou extras fazem parte da estratégia de uma parcela significativa da população para lidar com o orçamento doméstico.

Entre os entrevistados que realizaram atividades para complementar a renda, os serviços gerais como faxina, reformas, manutenção e jardinagem aparecem entre os trabalhos mais realizados.

O gráfico abaixo apresenta os resultados por cidade.

Apesar da necessidade de buscar fontes adicionais de renda, a percepção sobre a evolução da renda pessoal nos últimos 12 meses é diversa. 18% dos entrevistados afirmam que sua renda aumentou, enquanto 31% dizem que ela diminuiu. Para 45%, a renda permaneceu estável no período.

Pergunta: Pensando nos últimos 12 meses, você diria que a sua renda pessoal aumentou, diminuiu ou se manteve estável?

Quem percebeu aumento ou redução da renda?

A percepção sobre a evolução da renda varia de acordo com características socioeconômicas e faixa etária dos entrevistados.

Aumentou a renda

  • Pessoas com renda familiar superior a 5 salários mínimos: 28%
  • Pessoas com renda familiar de 2 a 5 salários mínimos: 26%
  • Jovens de 16 a 24 anos: 26%
  • Classe AB: 24%

Diminuiu a renda

  • Pessoas com ensino fundamental: 44%

Renda e desigualdade nas cidades

A percepção sobre renda está diretamente relacionada às condições de vida da população e às desigualdades presentes nos territórios.

A Pesquisa Viver nas Cidades busca compreender como os moradores das capitais brasileiras percebem essas transformações no cotidiano, revelando diferenças entre grupos sociais e entre as cidades pesquisadas.

Percepção sobre a evolução da renda pessoal por cidade

Alimentação é a principal despesa no orçamento doméstico

Além da renda, a pesquisa investigou quais despesas mais pressionam o orçamento familiar.

A alimentação é o item que mais impacta o orçamento doméstico para 47% dos entrevistados. Em seguida aparecem os gastos com moradia (27%) e saúde (11%).

Os hábitos de consumo também refletem estratégias de adaptação diante de um orçamento mais apertado. O aumento do consumo de ovos, acompanhado pela redução do consumo de carnes, laticínios e produtos hortifrutigranjeiros, indica que parte dos entrevistados tem substituído produtos de maior valor por alternativas mais acessíveis para manter a alimentação da família.

Despesas que mais impactam o orçamento familiar

Pergunta: Considerando a sua renda familiar mensal, ou seja, a soma das rendas de todas as pessoas que moram com você, inclusive a sua, quais desses itens impactam mais o seu orçamento doméstico? (1º lugar)

Fome e pobreza ainda são percebidas como problemas nas cidades

A percepção da população sobre fome e pobreza nas cidades também faz parte do levantamento.

A maioria dos entrevistados continua percebendo aumento do número de pessoas em situação de fome e pobreza no município onde vive. Embora essa percepção tenha diminuído em relação à pesquisa realizada no ano anterior, o tema permanece como um dos principais desafios apontados pela população.

Pergunta: Na sua percepção, nos últimos 12 meses, o número de pessoas em situação de fome e pobreza na sua cidade aumentou muito, aumentou um pouco, está igual, diminuiu um pouco ou diminuiu muito?

Educação avança, mas mobilidade social ainda é um desafio

Os dados sobre mobilidade social mostram que os avanços educacionais das últimas décadas ainda não se traduziram, na mesma proporção, em melhoria de renda e das condições materiais de vida para uma parcela da população.

Entre os entrevistados, 73% afirmam ter escolaridade superior à de seus pais. No entanto, apenas 46% dizem possuir renda maior do que a de seus pais quando tinham a mesma idade.

Os dados indicam, portanto, que o aumento da escolaridade entre gerações não necessariamente resulta em mobilidade econômica na mesma proporção.

Para o diretor-geral da Fundação Grupo Volkswagen, Vitor Hugo Neia, os resultados ajudam a dimensionar os desafios para a promoção da mobilidade social no Brasil.

“A educação continua sendo uma das principais ferramentas para ampliar oportunidades, e o avanço entre gerações é muito significativo. Entretanto, os dados mostram que estudar mais, por si só, não garante que essa trajetória se converta automaticamente em aumento de renda e em melhores condições de vida. O desafio é fazer com que a qualificação educacional e profissional esteja conectada a oportunidades concretas de trabalho, geração de renda e inclusão produtiva”, afirma.

Melhorias na renda, escolaridade e moradia não acontecem de forma igual

A pesquisa também investigou como os entrevistados avaliam sua situação econômica nos últimos cinco anos.

45% afirmam ter aumentado sua renda, enquanto 44% relatam melhora na escolaridade e 41% registram avanço nas condições de moradia. Por outro lado, 35% relatam redução da renda e 24% afirmam ter enfrentado piora nas condições de moradia.

Os resultados mostram que os movimentos de ascensão social não ocorrem de maneira uniforme e que diferentes dimensões da vida como educação, trabalho, renda e moradia podem evoluir em ritmos distintos.

Pesquisa Viver nas Cidades

A Pesquisa Viver nas Cidades: Desigualdades e Mobilidade Social amplia o olhar sobre as condições de vida nas cidades brasileiras ao reunir percepções da população sobre renda, trabalho, orçamento familiar, moradia, educação, pobreza e mobilidade social.

Ao identificar diferenças entre grupos sociais e territórios, o levantamento contribui para qualificar o debate sobre desigualdades urbanas e políticas públicas e reforça a importância de produzir e utilizar dados para compreender os desafios das cidades brasileiras.

Compartilhe
Rolar para cima