A vergonhosa desigualdade na cidade mais rica do país

Por Jorge Abrahão, coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis

A Rede Nossa São Paulo divulgará, na próxima semana, dados atualizados do Mapa da Desigualdade de São Paulo nas áreas da saúde e da cultura. Publicado anualmente há mais de dez anos, o mapa se consolidou como uma importante ferramenta para auxiliar a prefeitura, a sociedade civil e demais interessados na identificação de necessidades e prioridades da população paulistana. É um trabalho que reúne 50 indicadores de diversas áreas desagregados por distrito, ou seja, que permite avaliar a situação e as disparidades dos vários bairros e territórios de São Paulo em diferentes temas.

Em linhas gerais, o mapa mostra os extremos que separam os 96 distritos da capital em termos de infraestrutura urbana e acesso a bens e serviços públicos. Em boa parte dos indicadores percebe-se que, quanto mais se afasta do centro, menor a oferta de recursos capazes de melhorar a qualidade de vida das pessoas.

Nas áreas de saúde e cultura, essa realidade aparece de forma contundente. Indicadores como idade média ao morrer e gravidez na adolescência expõem a enorme distância que separa os bairros mais ricos dos mais pobres. O mesmo acontece quando observamos os dados de mortalidade materna, mortalidade infantil e realização de exames pré-natal.

O Mapa mostra, por exemplo, que em 38 distritos não ocorreu nenhuma mortalidade materna entre 2022 e 2024. É uma boa notícia, se olharmos isoladamente para esses lugares. Porém, em outros locais da mesma cidade, os números apresentam uma realidade bem diferente. Em Anhanguera, no extremo da Zona Norte, a taxa é de 155 óbitos maternos para cada 100 mil nascidos vivos. É o distrito que registra o pior indicador.

Para entender melhor esse número, um bom começo é observar o que acontece no Brasil e no mundo. Em nível global, houve uma queda de 45% nas taxas de mortalidade materna entre 1990 e 2013. No Brasil, esse valor caiu vertiginosamente em 20 anos: de 141, em 1991, para 64, em 2011. Hoje, a taxa do país é de 50 óbitos para cada 100 mil nascidos vivos. A meta é chegar a 35 até 2030.

Isso significa que, em Anhanguera, a mortalidade materna é três vezes maior do que a média do Brasil. Outros 23 distritos da capital paulista também registram taxas maiores do que a nacional.

Outro indicador que resume a desigualdade é a diferença da idade média ao morrer entre um distrito rico e um mais vulnerável: é de 20 anos, há mais de uma década. Sim, na mesma cidade há distritos onde as pessoas vivem 20 anos a menos do que em outros. Infraestrutura, homicídios de jovens, mortalidade infantil e materna, acesso a saúde e educação de qualidade e habitação precária, são algumas das explicações para essa aberração.

O mérito do mapa é mostrar a desigualdade abissal dentro da mesma cidade, uma capital pujante, a mais populosa e mais rica do país. Nos 75 quilômetros que separam o extremo norte do extremo sul de São Paulo, encontramos indicadores equivalentes aos dos países mais desenvolvidos do mundo – e, também, dos mais vulneráveis.

Em síntese, as cidades reproduzem o país, um dos mais desiguais do mundo. O que é lamentável e não justifica sua permanência, já que esses problemas são produtos de políticas públicas que os provocaram. Até por isso, é passíveis de reversão – basta assumi-los como prioridade. 

A desigualdade precisa ser enfrentada pelo poder público com mais investimento para os distritos mais vulneráveis e a descentralização da gestão e administração a partir das subprefeituras, de modo que elas possam atuar com autonomia e tomar decisões com base em participação social efetiva. É o oposto do que acontece há muitos anos em São Paulo.

Entra governo, sai governo, não há mudança na vergonhosa desigualdade na cidade mais rica do país – o que prova que um dos temas mais importantes para a vida em sociedade não é prioridade para a gestão pública. E ajuda a explicar os baixos índices de aprovação da  administração pública, prefeitura e câmara de vereadores, pela sociedade.

Artigo publicado originalmente na Folha de S. Paulo em 23 de abril de 2026

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