Por Jorge Abrahão, coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis
Surgimos de um lugar único e criamos inúmeras culturas e línguas em nossa trajetória de adaptação a diferentes ambientes. Coisas que eventos como Copa do Mundo evidenciam e nos sensibilizam
Gosto de ver no início dos jogos o ritual dos hinos. Momento de emoção, o canto e a fisionomia dos jogadores dizem muito do que está por vir. E a diversidade da plateia, as caras, as cores, as vestimentas e o entusiasmo só confirmam que a diversidade cultural é uma das maiores riquezas da humanidade, que deve ser valorizada, respeitada e desfrutada por todos. Afinal de contas, surgimos de um lugar único e criamos inúmeras culturas e línguas em nossa trajetória de adaptação a diferentes ambientes. Coisas que eventos como Copa do Mundo, Olimpíadas, filmes ou viagens evidenciam e nos sensibilizam.
Curioso por entender melhor a situação dos países de onde vêm aqueles jogadores e torcedores que vejo na tela, em que ambiente vivem, quantos são, que riqueza material, que qualidade de vida eles têm, pesquisei alguns dados e características dos países, para tentar sentir onde vivem. Aqui me restrinjo ao IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e ao PIB per capita.
Uma maneira de criar referência é olhar para os dados do país em que vivemos para comparar e imaginar o padrão de vida de outros. Por exemplo: ao conhecer o IDH do Brasil, posição 84 entre 193 países avaliados, dá para imaginar a qualidade de vida em um país como o Haiti, que tem posição 166 no IDH. É interessante perceber que o mesmo Irã, recentemente bombardeado, ocupa a 75ª posição no índice e, portanto, tem melhor qualidade de vida do que o Brasil. Quando observamos o PIB per capita da Noruega do Haaland, de aproximadamente US$ 105 mil —oito vezes maior que o do Brasil, de US$ 12 mil, ou da Argentina, de US$ 14 mil —percebemos que, supostamente, num jogo entre a Argentina e Noruega, o indicador de PIB per capita não prevalecerá.
Cabo Verde, com 500 mil habitantes e posição 135 no IDH, empatou com a poderosa Espanha, na 28ª colocação do índice. De onde surgiu a força desses 11 jogadores de Cabo Verde? Esta é uma experiência surpreendente, que nos leva à superação.
Pode-se dizer, pelo menos nessa primeira semana de Copa, que não há relação entre a qualidade do futebol e dados como o IDH e o PIB per capita. E esta julgo ser uma boa notícia. Afinal de contas, o que vale mais do que os dados e a técnica é o envolvimento, o comprometimento coletivo e a alma dos jogadores. O que não é diferente de muitas situações da vida real.
A prova dessa imprevisibilidade é que, no bolão da família, quem está na frente é uma sobrinha, que visita o futebol de quatro em quatro anos, durante as Copas. Os supostos sabichões estão lá atrás. O que nos traz esperança diante de um mundo que tenta nos enquadrar e robotizar cada vez mais.
Tudo leva a crer que a Copa ficará nas mãos de um país desenvolvido e rico. Mas esta primeira fase nos traz a experiência do humano, quando a resistência e a alma ainda têm lampejos e surpreendem os números e a razão. O que significa que ainda há esperança.
Artigo originalmente publicado na Folha de S. Paulo em 18 de junho de 2026.


